quarta-feira, 24 de novembro de 2010

10 - M/Y Mirage - parte II

Nem vou falar do calor de novo... Mas olha o que fizemos ao chegar à cabine!

                                             Não pode rir!

 A vontade era da gente se deitar na água, só não fizemos isso por que não iria dar tempo de tomar banho, almoçar e sair novamente, mas isso ajudou pra caramba!
Se você se esforçar vai ver uma fumacinha subindo e um barulhinho parecido com Tchssssss...

Uma coisa tem que dizer! Tudo, mas absolutamente tudo o que se viu até agora é maravilhoso, o Egito tem sim uma aura de magia! É encantador!
Dá vontade de ficar mais tempo nos lugares, de olhar com mais calma, ficar absorto em pensamentos e tentar ver além das paredes e hieróglifos. É mágico!
Enquanto estávamos almoçando, começamos a navegar.

Estamos indo para a pequena cidade de Edfu, que fica entre Luxor e Aswan, o dia da semana é domingo, estranho ver crianças na rua passando de uniformes escolares e com mochilas. Perguntei ao Abdul por que elas estavam estudando no domingo. Abdul me disse que o dia de descanso para eles é segunda feira.



A cidade é muito pobre, e foi lá onde eu e a Pri, sentimos com mais intensidade a reprovação pelas roupas que estávamos vestindo. Estávamos de camiseta regata e bermudas, mas foi o suficiente para ter olhares fechados sobre nós!

Em Edfu vamos visitar o templo de Hórus, e somos surpreendidas por uma novidade! Para chegar até o templo iremos de charrete.
 Muito legal, não fosse pelo aspecto triste e magro do cavalo que vai nos puxar, deu um dó subir na carroça!


Mas logo em seguida já começamos a rir, por que o condutor ao se apresentar disse que se chamava Rambo e piscou o olho para a Priscila.
Essa foi ótima, comecei a rir pra valer! Primeiro por que o Rambo do Egito estava mais para o ratinho do filme Ratatouille e segundo por que tudo que agente queria naquele momento era um Rambo apaixonado!
Quanto mais eu ria mais a Pri ficava furiosa, meu Deus!

- Para de rir Cris!  Eu não gosto nadinha disso!  Só me faltava esta!
Eu dizia:
- Pri!  Olha que legal!  Você ta abalando geral!  Tem um admirador no Egito! E soltei o riso pra valer! Até ela teve que rir depois.

Isto está acontecendo enquanto estamos subindo na charrete e nos acomodando com as máquinas e filmadora, até colocar tudo no colo de forma segura já estamos em movimento!

Não sei se consigo descrever o nosso percurso na charrete, vou tentar!

Nós e os outros turistas do navio vamos fazer este passeio, então há outras charretes fazendo o mesmo percurso que o nosso, elas estão estacionadas como os táxis, e à medida que vão enchendo outras vão chegando.

De uma hora para outra as ruas de Edfu estão tomadas de charretes, misturadas com os carros e vans que andam com as portas abertas e com pessoas penduradas. Um perigo!
Nossa charrete do Rambo tem uma buzina, daquele tipo corneta de vendedor de picolé bem das antigas e enquanto vai passando vai buzinando.

As ruas não são lá essas coisas, a Priscila disse que tinha buracos, eu estava tão emocionada que não percebi, tem lombadas também, no nosso caso quebra cascos. E nós vamos pulando e sacudindo lá atrás enquanto tentamos parar de rir para tirar algumas fotos e filmar este trajeto inusitado.

                                          As placas tem gerador solar
  
 O Rambo buzina sem parar, evidente que não tem pisca, logo ele entra para a esquerda ou para a direita da forma que ele achar melhor, quem vier atrás que se lasque! Ou que buzine!

Estou sentada atrás do Abdul do lado esquerdo, onde está a divisão da rua, que é uma avenida, por um momento o Rambo quase sobe a calçada, e fico imaginando se o Abdul cai em cima de mim!

 Num calor de 45º fiquei congelada com a idéia!

Rambo ao ouvir uma buzina insistente precisa ir para a direita e um carro que estava atrás de nós passou MUITO perto, quase consegui ver a cor da íris da mulher que estava ao lado do motorista. Junto com o carro ultrapassa também pela esquerda outra charrete e uma moto! Não me pergunte como, mas eles fizeram.

O Rambo resolve então voltar para a esquerda e à nossa direita vem uma charrete tocando o terror no cavalinho coitado, vixe! Agora que foi a provocação! O Rambo resolveu acelerar também e por alguns intermináveis segundos corremos cabeça a cabeça com a outra charrete... Não sei o que dizer deste momento! Foi sublime! Um sentimento de pena dos cavalos e ao mesmo tempo querendo ganhar daquela charrete metida!

Eu e a Pri estamos rindo às gargalhadas! Tentando segurar óculos, máquinas, pulando nos buracos, eu com medo do Abdul cair no meu colo, o Rambo buzinando, os carros cortando e fazendo curvas à nossa frente, mais à frente um quebra-cascos sinalizado, e a velocidade continua acelerada! Cadê o cinto da charrete! SOCORRO!

Perdemos nesta corrida e desta forma como era de se esperar, demos um salto “daqueles” na lombada, meu óculos de sol quase se perdeu para sempre não fosse minha vocação para “polvo”. Agora mais calmo Rambo retoma o passeio mais lento.
Finalmente entramos em uma rua mais calma e então o pobre cavalo pode andar mais devagar.

Acho que este foi o momento mais divertido desta viagem! Teve emoção de verdade nesta corrida. Acho que o Rambo estava querendo mostrar as suas habilidades para a Priscila!

Observe quase no final do filme vai aparecer uma criança correndo atrás da bola no meio da rua! Do outro lado vem uma van em alta velocidade. Quase congelei de novo!


Edfu é famosa por abrigar o templo mais bem preservado do Egito. Dedicado ao deus falcão Hórus, foi construído no século III a.C. durante o período Ptolomaico e levou quase 200 anos para ser finalizado.

Sua boa conservação se deve ao fato de ter sido encoberto pelas areias do deserto, quando a mitologia egípcia havia perdido a sua importância frente ao cristianismo romano. Só foi redescoberto no século XVIII quando arqueólogos franceses encontraram o lugar.

Para lembrar: Hórus era filho de Ísis e Osíris, aquele que foi assassinado pelo irmão Seth e teve o corpo esquartejado jogado no rio Nilo. Ísis encontrou o coração no templo de Philae, o primeiro a ser visitado.

Então, Hórus jurou vingar a morte do pai e retomar o trono.

Segundo a lenda o olho esquerdo de Hórus representava a lua e o olho direito representava o sol. Durante uma luta com Seth, este lhe arrancou o olho esquerdo o qual foi substituído por um amuleto pelo deus Thot, que não lhe dava a visão total, então o deus lhe deu também uma serpente que ficava acima de sua cabeça.

Depois de sua recuperação, Hórus pode organizar novos combates que o levaram a vitória decisiva sobre Seth. Era a união do olho humano com a vista do falcão, animal associado ao deus Hórus. Era usado em vida para afugentar o mau olhado e, após a morte contra o infortúnio do além.

O “Olho de Hórus” e a serpente simbolizavam poder real, tanto que os faraós passaram a maquiar seus olhos como o “Olho de Hórus” com o traço bem puxado nas laterais dos olhos e a usar serpentes esculpidas em suas coroas.
Atualmente o “Olho de Hórus” adquiriu o significado de evitar o mal e espantar a inveja (o mau-olhado), mas continua ainda com a idéia de trazer proteção, vigor e saúde.

 Os egípcios realizavam um festival anual intitulado “Festival Anual da Vitória do Filho”, comemorando o triunfo de Hórus na batalha final contra seu tio Seth, que aconteceu no local onde foi construído o templo.

                                  Entrada do Templo de Hórus


Parte interna do Templo

  Lembra do japonês no deck das piscinas? Olha ele aí!


Interior do Templo, sala das escências


Barca Sagrada, onde as imagens sagradas eram carregadas nos festivais comemorativos

Esta tarde foi encantadora! Maravilhosa, cheia de histórias, lendas, contos e aventura perfeita mesmo!

Preciso falar que ao entrar no templo, Abdul foi cumprimentado por alguns policiais e gerente do templo. Eles contaram que no dia anterior o haviam visto dando uma entrevista na televisão local falando sobre este lugar.
 Abdul disse então que esta matéria era da semana anterior e que no momento estava também com duas turistas brasileiras.
Eu e a Pri já havia reparado o quanto ele era saudado por todos nos lugares em que íamos, era sempre parado por outros guias que faziam questão de cumprimentá-lo. Comentei isto com ele, então a explicação veio:

- Isso acontece por que sou arqueólogo e especialista em egiptologia, fui professor na Universidade do Cairo, grande parte dos guias que estão aqui, foram meus alunos.

Ah! Agora está explicado, o porquê de tanto prestígio e carinho, ficamos felizes eu e a Pri, percebemos que estávamos muito bem acompanhadas.

Saímos do templo ao entardecer, e novamente me apaixonei pela luz que eu vi!
 É uma mistura de dourado com azul, de impossível descrição! As luzes do templo são ligadas para as visitas noturnas e esta combinação luminosa produz matizes incríveis!
É algo maravilhoso de presenciar!

Para que tudo fosse ainda mais especial, quando estamos saindo do templo, as mesquitas começam a chamar para as orações! Várias mesquitas são ouvidas ao mesmo tempo.
A Priscila pergunta o que eles estão falando.
Veja no vídeo a explicação do Abdul que lindo!


Ao sair encontramos com o Rambo que estava à nossa espera, o caminho de volta foi emocionante como o de ida.
Pedimos para o Abdul comprar o Kohl, e neste filme você poderá ver o cocheiro apaixonado apresentando-se novamente enquanto estamos estacionados em frente a uma farmácia.


Depois desta aventura de charrete, vamos nos preparar para a festa, já temos a roupa, a touca e a maquiagem.
Abdul pediu quando chegamos ao navio, que fôssemos muito bonitas, que fizéssemos a pintura de olhos como os egípcios, ele gostaria que estivéssemos presentes no coquetel que antecedia a festa. Exatamente como Nefertari e Cleópatra.

Muito bem, concordamos e fomos para a cabine.

Esta noite promete!

 
 

9 - Kom Ombo

Kom Ombo é uma cidade do Egito, localizada na margem direita (oriental) do rio Nilo, a cerca de 160 km ao sul de Luxor e 40 km ao norte de Aswan. Ela tem aproximadamente 60 mil habitantes, muitos dos quais são núbios provenientes das regiões inundadas pelo lago Nasser, que foi formado após a construção da represa de Aswan.  Aquela que visitamos no primeiro dia.

A cidade é um importante destino turístico, em razão de ter um templo de época greco-romana, mais precisamente ptolemaico, dedicado a duas divindades: o deus crocodilo Sobek e o deus falcão Hórus. A entrada é composta de portais gêmeos, um para cada deus.
Por estar às margens do rio Nilo numa região infestada de crocodilos foi construido um túnel subterrâneo que permitia que os répteis nadassem até um poço dentro do templo para serem melhor admirados pelos fiéis.


                                                      Portais gêmeos

Há hieróglifos em relevo nas paredes onde consta a primeira receita médica da humanidade, bem como, já naquela época um médico usando um estetoscópio.
Algumas paredes ainda conservam a pintura original, algo imprecionante! Certamente pelo clima seco do deserto, com idade de quase 3.000 anos.


                                                  Sobek o deus crocodilo

                                                  Hórus o deus Falcão

                                                            Pintura Original
                                        
Há também uma construção interessante neste templo, algo que mais tarde vamos ver em outros templos também, é uma construção que se chama nilômetro, serve para medir a altura do rio Nilo e assim poder fazer a previsão dos impostos, caso houvesse cheia os impostos eram mais baratos.


                                                           Nilômetro

Acho que quando o Abdul nos passou esta informação em seguida pode ter ficado chateado, por que eu e a Pri começamos a brincar com a palavra “nilômetro”, dizendo que então era daí que vinha a palavra “nilímetro” ou “nilimétrico”. Tivemos que parar de rir, acho que ele não gostou, mas depois até riu um pouquinho do trocadilho.


                                                              As lindas                                     

Abdul desde a primeira noite havia nos avisado sobre uma festa com trajes típicos do Egito, quando chegamos ao navio fomos olhar as roupas que estavam expostas na lojinha do andar superior e não nos agradamos de nenhuma, pedimos que ele nos ajudasse a comprar algo mais interessante no mercado de Kom Ombo.
Esta foto acima é a última deste templo, em seguida começamos a voltar para ver os trajes.
Entramos numa estande onde logo começaram as conversas, é muito interessante a rapidez dos comerciantes, eles assim que olham voce começam a falar em espanhol, parace que está escrito na testa da gente.

Abdul senta e fala em árabe, imagino que está pedindo as túnicas que queremos.

Agora imagina, faz um calor de 45º ou mais,  precisamos colocar as roupas por cima das nossas, e os vendedores não param de falar, fazem isso juntos, ao mesmo tempo, acho que deve ser alguma técnica para deixar os turistas meio tontos.

E começam então as provas naquele calor. A roupa não desce! Ela cola em voce. Fica presa nos braços, nos ombros fazendo a gente ficar se remexendo que nem uma cobra maluca para poder entrar num negócio daqueles.
As cores também não ajudam muito, tá dificil escolher, mas estamos tentando, penso o seguinte: Quando nesta minha vida vou usar isto aqui de novo? Ah e tem mais! Na cabeça vai uma touquinha com uns penduricos que ficam balançando na frente dos olhos. Nada confortável.
Abdul fica assistindo e achando graça das nossas macaquices para entrar nas roupas, quando finalmente coloco uma azul e ele diz que sim com a cabeça, a Pri escolhe uma preta e ele concorda também, diz que somos agora a Nefertari e a Cleopatra.

Meu Deus! Que calor! Finalmente escolhemos as tunicas, as touquinhas e agora começam as negociações.
Eles pedem o valor em euros, digo que não, quero o valor em libra. Daí o Abdul começa a falar com eles.
Para amenizar o vendedor faz uma oferta por mim, diz que paga 2.000 camelos e 3 Ferrari, acho engraçado, a Pri diz que vai ligar para o Ronaldo por que a oferta parece boa, ela lembra que a oferta da Xuxa foi de 1.000 camelos e 2 Ferrari. Acho que é por que o cabelo dela é curtinho.

As negociações evoluem para dólar, e dizem então que cada conjunto de tunica e touca custa 100 dólares. Ah...tá brincando né? Abdul interfere de novo e diz que não, que somos brasileiras, que eles podem cobrar isso quando ele levar turistas europeus, que este preço não pode ser.

Eu já to ficando com insolação, o calor tá de esturricar, uma sede que só de pensar em água ela aparece na minha frente, tipo miragem! Preciso urgentemente fazer pipi, tudo isso junto! E os caras não param de falar e negociar. Que chatice!
  To começando a achar que está é uma técnica muito utilizada no Egito, lembrei do Haissan quando queria vender o ingresso do tal show de luz e som no Cairo.

Fechamos em 45 dolares cada uma, e fomos embora. Crentes que fizemos bom negócio, para no segundo seguinte perceber que não!
É muito doido isso, agente sabe que está sendo enrolada, percebe que tá errado, sabe que não é pra fazer, mas acaba fazendo. Comentamos entre nós que era certo que tinhamos pago caro demais. Certeza que pagamos mesmo!

Pelo menos é algodão egípcio. A túnica tá aqui a touquinha também, se alguém precisar está às ordens!

Voltamos para o navio, hora de almoçar, descansar um pouco e retomar o fôlego para o passeio da tarde.

8 - M/Y Mirage - Primeira noite

                               M/Y Mirage, nossa casa por três dias

  O dia foi cheio de novidades, muito sol e uma prévia do que estava por vir no que diz respeito ao calor, penso que preciso me acostumar com a idéia de que esta será nossa realidade por estes dias.
A cabine é confortável, na entrada à direita está o banheiro que apesar de pequeno tem um bom espaço na pia e até uma banheira.
Há duas camas grandes, um espelho ótimo e uma cômoda bem espaçosa.

Sabemos que o jantar será a partir das 20hs, desta forma teremos tempo para descansar um pouco, tomar banho para depois comer. Começamos a abrir as malas e a comentar sobre o dia lembrando os lugares e principalmente sobre a diferença entre os dois guias que conhecemos.

Enquanto o Haissan tem um ar ansioso, irritante e até prepotente Abdul é justamente o contrário, é humilde, gentil e muito educado.
 Saímos para o jantar. E à medida que procuramos o restaurante estamos na expectativa para conhecer nossos companheiros de viagem.
 Na entrada do restaurante está o maitre que nos recebe falando em inglês, pergunta nossos nomes, de onde somos e nos encaminha para uma mesa onde já estão sentados um homem e uma mulher jovens.

Olho rapidamente em volta e vejo algumas mesas vazias, me pergunto por que será que ele nos colocou junto com este casal?

Somos apresentadas rapidamente. Sentamos eu e a Pri, uma de frente para a outra. As mesas são pequenas e bem próximas de forma que preciso fazer certos movimentos para não bater na mesa ao lado.
O garçom se aproxima e fazemos o pedido das bebidas. Após um cumprimento tímido para o casal ao lado comentamos o fato de termos que sentar junto de outras pessoas ao invés de estar em outra mesa só para nós.

Agora já acomodadas, recebo um olhar daqueles da Pri, e entendo que devo observar em volta. Ao fazer isso percebo que nós duas e o casal da nossa mesa, somos provavelmente as pessoas mais jovens de TODO o navio com exceção da tripulação. 
Entendi por que estamos nesta mesa afinal!

Sim, poderíamos dizer que éramos filhas ou netas de qualquer pessoa daquele navio, sem erro. Havia famílias, casais, grupos de amigos, pessoas sozinhas na faixa de 60 anos para mais. Todos muito simpáticos, animados, e nós.

Começamos a rir, acho que de nervosas, não sei, o fato é que nosso riso foi visto e encarado como algo simpático, quebrando a formalidade. A senhora da mesa ao lado perguntou de onde éramos, e a Priscila responde, imediatamente ela sorriu contando que adorava o Brasil e que já tinha ido ao carnaval do Rio de Janeiro nas férias. O marido também entra na conversa e um animado e descontraído papo fica cruzado entre nós quatro. Em inglês, quer dizer... Quase em inglês. Mais ou menos. Dava para eles entender.
O casal da nossa mesa apesar de simpáticos são mais reservados. Jantam, pedem licença e saem.

A comida é uma maravilha!  Fico feliz em perceber que o Buffet contém muitas saladas e pratos ocidentais além dos pratos típicos do Egito.
O maitre que nos recebeu, agora está servindo e muito simpático me chama pelo nome, pergunta se gosto de tomates. Sim, ele chama todos pelo nome e começa a servir o caldo que estava divino! Repeti mais uma vez e a Pri duas.

Após o jantar vamos para o deck das piscinas, é possível ver Aswan com as luzes da noite, é muito bonito. Encostado ao nosso, está o deck do navio vizinho onde observamos uma família.
Há duas mulheres, uma mais nova que segura um bebê e outra mais velha, ambas vestiam lenços e túnicas. Há também dois homens, ambos com idade para ser o pai da mulher mais nova. Não conseguimos identificar quem era o pai e quem era o marido dela.

A situação era interessante, por que nós olhávamos e eles também.

Eu e a Pri estávamos de vestidos curtos. E as mulheres com aquele calor, estavam de túnicas com mangas compridas e lenços. É possível que, assim como nós, elas também achassem muito estranho duas mulheres vestidas daquele jeito.
 Nós de vestidos curtos e elas de vestidos longos. Apesar dos olhares disfarçados, todos nós estávamos sendo observados, de lá e de cá. Olhares curiosos, não ameaçadores, mas definitivamente assim como eu e a Pri, provavelmente elas comentaram entre si o mesmo que nós:
- Como elas pode se vestir assim?

Decidimos voltar para a cabine e dormir. Ligamos a televisão, rimos um pouco dos canais e começamos a nos preparar para descançar.

Nem percebemos, mas já estávamos navegando. Antes de dormir olhei pela janela e vi a paisagem das margens do rio se modificando.  A Pri já está no quinto sono. Coloco o celular para despertar e vou dormir também.

Acordei muito cedo e apesar de ainda estar cansada, não consegui mais voltar a dormir.
 Tomei banho, me vesti e peguei a câmera para fazer algumas fotos no deck das piscinas.

Ao chegar lá, encontro um japonês mais apaixonado por fotos do que eu, ele tinha uma parafernália de equipamentos montados em várias partes do deck, e cada hora ele montava a máquina em um deles. Fazia várias fotos ao mesmo tempo. Parecíamos dois malucos, por que eu fazia uma foto, ele ia atrás e fazia também, e vice versa. Ficou engraçado. Agente ia se cruzando e caminhando de um lado para o outro, hora ele me seguia, hora eu seguia ele.

                                                              Deck das piscinas

                                                                 Amanhecendo!

Ao voltar à cabine a Pri já estava acordada e fomos tomar café para depois começar os passeios do dia. Chegamos ao saguão com lenço, boné, chapéu e máquinas. Encontramos o Abdul e outros turistas também devidamente equipados com seus respectivos guias.

Quando o navio atraca, imediatamente entram policiais armados e fazem uma vistoria no navio, olho para fora e vejo mais policiais, assim como eu, todos ficaram assustados!

Pergunto em espanhol para o Abdul o que está acontecendo. Ele tenta ser o mais natural possível em explicar que é apenas uma medida de segurança para os turistas.

Insisto na pergunta. Ele responde então, que ha um tempo atrás houve um atentado onde alguns terroristas haviam atirado em turistas, e que a partir daquela data o Egito estava mais rigoroso com a segurança em todos os navios, ônibus e templos.
 Ele terminou de falar e virou de costas, certamente para não responder mais nada, nem correr o risco de que eu perguntasse mais detalhes. E era exatamente o que eu estava prestes a fazer.

Esta situação incomodou. Apesar dos policiais estarem ali para proteger, somos lembradas novamente de que: “O terrorismo é uma realidade vigente” Estamos em um país onde o risco de passar uma situação destas não está tão longe assim. É presente. É real!
 Penso que, assim que tiver oportunidade vou buscar informação sobre terrorismo no Egito. Deveria ter feito isso antes, mas...
As portas abriram, e recebemos cartões para devolver na volta do passeio, isso garante que ninguém entre clandestino em nenhum dos navios.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

7 - Aswan

Vôo tranqüilo e rápido. Encontramos na chegada, o guia que vai nos acompanhar em Aswan e depois pelo cruzeiro.
  Abdul é um senhor que deve ter algo entre os 50 e 55 anos, de mais ou menos 1,80m, óculos bem grossos, maneiras gentis e muito educado.
 Quando entramos na van, encontramos duas caixas com lanches, precisamos comer no carro por que não teremos tempo de almoçar.
Enquanto vamos ao primeiro ponto turístico começamos a lanchar, Abdul se apresenta novamente, falando um espanhol perfeito e nos dá as boas vindas ao Egito, desculpa-se pelo inconveniente de termos que comer no carro e pergunta se pode começar a falar sobre o ponto turístico que estamos indo. Quanta diferença!

Tudo certo. “Claro que sim” eu respondo e então tecnicamente começamos a viagem de turismo.

Paramos em um lugar onde se via homens da policia armados, ele explica que estamos em High Dam, uma barragem construída em conjunto com a União Soviética a fim de controlar as cheias do rio Nilo. Realmente uma obra muito linda, mas quando finalmente descemos do carro percebemos o que é sentir calor.

Estava seguramente um calor de 45º, mais tarde perguntei ao Abdul e ele confirmou, o ar é quase imperceptível. O sol queima de doer na pele, a cabeça ferve, por que até o cabelo parece que vai pegar fogo, ficamos indecisas entre voltar para a van correndo ou acompanhar o guia que tão gentilmente se esforça em explicar e contar a história desta magestosa construção.
 Fazemos algumas fotos, e ao encostar no muro para me apoiar fiz uma queimadura no calcanhar, levantou bolha depois, imagina só!






Estamos indo agora para o Templo de Philae, que imaginei ser algo dentro da cidade de Aswan, engano, este templo fica numa ilha.
Ele foi totalmente desmontado do lugar original e reconstruído na ilha de Agilika, por causa da construção da represa.
 O carro estaciona em um porto cheio de pequenas embarcações, Abdul escolhe um barco para fazer a travessia e assegura-se de que eu e Priscila entremos em segurança.

O mito egípcio reza que quando Seth assassinou seu irmão Osíris, retalhou seu corpo e lançou pedaços ao longo do Nilo. Isis, esposa de Osíris percorreu o Egito procurando as partes do corpo de seu marido para ressuscitá-lo, e haveria encontrado na distante ilha de Philae o coração de seu amado.
Este templo foi erguido então para o culto de Isis que é uma referencia ao amor também.

Apesar do calor o percurso é bem agradável, a vista é maravilhosa, penso neste momento o quanto sou uma pessoa de sorte por estar vivendo algo assim, na verdade, o barqueiro, um senhor de aparência humilde que veste uma túnica de tecido leve, colabora com este momento fazendo exatamente o que ele faz bem, que é navegar em segurança.

A proximidade com a ilha é um momento mágico!



 É possível avistar parte do templo que se ergue dourado pela cor das pedras e refletindo o sol que nesta hora da tarde é bastante intenso.
Imagino este caminho sendo feito pelos adoradores de Isis enquanto ancoramos para descer.

O local tem poucas pessoas, então é possível caminhar tranquilamente enquanto ouvimos as explicações de Abdul, as fotos ficaram lindíssimas, a iluminação ajuda, os locais são fantásticos e o fato de não estar cheio é melhor ainda.

Assim é possível imaginar a aura de culto deste lugar, gosto de fazer este exercício, o de imaginar as coisas acontecendo na época, fico pensando como eram, o que faziam e principalmente o porquê faziam, sou curiosa por natureza. Finalmente Abdul começa a ficar muito feliz por que neste lugar fiz muitas perguntas a ele.

Então ele explica que no século V, por fim, foi ordenado o encerramento do culto de Isis, e a ilha foi colonizada por um assentamento de cristãos, convertendo o antigo templo em igreja, e desfigurando boa parte das imagens de deuses e faraós da antiguidade.
Em um dos bem preservados relevos no interior do templo, há uma cena bastante intrigante, em que Isis amamenta seu filho Horus, sentado em seu colo, uma cena muito semelhante às pinturas da Virgem Maria alimentando o menino Jesus.





Terminamos este passeio muito cansadas, a mochila agora está pesando 20kg e a bolsa 10kg, minha máquina de fotografia é uma Cannon profissional que fica pendurada no pescoço. Até ela está especialmente pesada, no entanto tenho a certeza de que o dia está muito bom apesar do calor, e sinto pela primeira vez uma animação inexplicável por estar onde estou.
 Ao chegar no barco percebemos mais dois barcos cheios de turistas atracando, tivemos sorte sim, as fotos deles estarão cheias de desconhecidos, as minhas não, e esta idéia me deixou muito feliz.

Deixamos vagarosamente para trás a o Templo de Philae, e enquanto o barco se afasta fico observando as pessoas chegando e caminhando por lá, em pensamento desejo a eles a mesma emoção que senti, não sei por que, tive muita simpatia por este lugar, talvez seja por que tenha sido o primeiro templo que visitei, e o primeiro templo a gente nunca esquece!
O próximo lugar a visitar se chama “Obelisco inacabado”. Fico pensando se teremos que caminhar muito embaixo daquele sol escaldante! A ficha ainda não caiu.

Descemos perto do local e novamente temos que carregar as bagagens pequenas, pois, ficam dentro do carro apenas as malas.
 Minha mochila para este passeio deve estar agora com 30kg, minha bolsa também está pesadinha, ao total devo estar com a sensação de carregar uns 40kg de coisas num calor de 45º, moleza para um camelo, mas para uma branquela como eu, desacostumada com este calor, comecei a passar mal só de pensar.

Realmente o lugar é lindo!  Fica em uma pedreira de Aswan, existente a 3 mil anos! Este obelisco mede 43 metros de altura, e 1.168 toneladas de peso, sem relevos foi deixado inacabado no seu sítio original em uma das pedreiras de Aswan, provavelmente por apresentar algum defeito, ele está ainda incrustado na rocha, deitado e com uma rachadura aparente, ao ser descoberto, os pesquisadores puderam entender e estudar como eles eram construídos, e mais uma vez dar créditos a este povo que desenvolvia técnicas e ferramentas para construções tão magníficas.

          Obelisco inacabado, nós acabadas, a rachadura e parte da rampa

O lugar está cheio de turistas, todos com chapéus, bonés, lenços na cabeça, e as duas tontas sem nada!
 Caminhar parece algo cada vez mais difícil naquele calor, vai embora toda a vontade de tirar fotos, o instinto é de sobrevivência! A Pri começa a sentir-se mal, e para observar melhor o obelisco é necessário subir uma rampa que neste momento parece alta e inatingível. Na verdade nem é! Hoje olhando as poucas fotos que fiz percebo que é uma rampinha de nada. Será que miragem é isso?

Quando finalmente chegamos ao alto é que se percebe a grandeza desta obra, realmente é muito bonito! Isto até anima um pouco, Abdul é detalhista nas explicações e percebo que fica esperando perguntas, me esforço para pensar em algumas, até consigo, mas acho que ele percebeu pelas nossas feições vermelhas e ânimos desmoronados que simplesmente não agüentamos mais.
Paramos para descançar e começamos a voltar para o carro, Abdul caminha na frente com o passo firme, eu e a Priscila caminhamos atrás quase arrastando, não sei o que é pior, se é continuar caminhando ou se é desmaiar, cair e fritar na pedra, optei por continuar caminhando.

Chegar ao carro é sempre um momento muito feliz, por que o ar condicionado dá uma boa revigorada, mas entramos com o cérebro derretido e a língua ressecada, não há o que falar, queremos ÀGUA!
Percebemos neste momento o quanto este liquido precioso vai fazer parte desta Jornada.

Abdul nos leva a uma loja de papiros, muito bonita, após as explicações e demonstrações de como se faz um papiro podemos escolher e comprar algum, bem... Não dá pra ir ao Egito e não trazer papiro! Escolho um bem bonitinho com a árvore da vida e os nomes meu do Ronaldo e do Victor escritos em hieróglifos, o da Pri também é legal. Os preços é que não são.

Os passeios do dia já estão completos, agora vamos a outro porto, e em outra embarcação à vela que se chama Feluca,  seguir até onde está ancorado o navio que vamos passar as próximas três noites.
 Neste momento o sol está se pondo e ouve-se o chamado de uma mesquita convocando para a quinta oração do dia. Abdul pede licença e diz que não devemos chamá-lo ou falar com ele, pois ele estará em oração, sendo assim, ele lava os pés, as mãos e o rosto nas águas do rio, dirige-se à proa do barco e começa as orações em silencio.
 É muito bonito testemunhar esta demonstração de fé, penso em mim. Será estou reservando tempo para Deus? Me questiono profundamente, e chego à conclusão de que não! Não estou sendo devota, não estou colocando minha fé no lugar que ela merece. Preciso melhorar isso!
Fico admirando este senhor, com a cabeça baixa, de olhos fechados e murmurando a oração, senti que aquele momento era especial!

Navegamos calmamente pelo Nilo, de um lado Abdul em oração, de outro o barqueiro que tem o olhar ao longe. Creio que apesar de fazer isso todos os dias, ele ainda sente emoção e encantamento, pois a sua expressão reflete uma paz contagiante enquanto arruma as velas e segura o leme.




                                                        Aswan é dourada

O sol está começando a repousar entre o vermelho e o dourado produzindo luzes maravilhosas nos reflexos da água! O silencio é imperante, e enquanto vamos navegando percebo a importância deste rio para este povo.
 Às margens tem pessoas pescando e crianças brincando, há outras Felucas navegando como a nossa, tudo gira em função dele, exatamente como há séculos atrás, fiquei encantada com esta cena, a Pri também está pensativa e imagino que esteja sentindo o mesmo que eu.
É um momento de adoração e completa entrega, realmente uma manifestação do divino de forma plena. E nós estamos lá, participando deste momento, agradeci por isso!

Fiz algumas fotos deste entardecer, e os “clicks” da máquina são os únicos sons a quebrar o silencio, neste momento a Pri me lança um olhar daqueles do tipo: ”Pare!”
Com outro olhar respondo: “Não dá amiga, sinto muito”, as fotos ficaram maravilhosas, mas elas serão apenas um resumo deste momento, por que os registros mais lindos mesmo fiz com o coração! E estas serão sem dúvida, algumas das fotos mais especiais que estarão por lá!
  Não pude resistir, e fiz uma foto que sempre faço nas minhas viagens com a minha companheira.

                                                        Uma Havaina no Nilo

                                                           O Nilo em Aswan

                                                               Nós no Nilo

                                                                 Abdul e eu


Depois de alguns minutos, chegamos. Descemos do barco realmente cansadas, mas muito felizes.
Interessante é que os navios estão ancorados um ao lado do outro, e para chegar ao nosso, tivemos que atravessar três deles passando pelas portas interligadas, incrível a perícia de colocar as portas coladas umas às outras.



 Abdul usa um tom muito sério ao nos advertir que em hipótese alguma devemos sair sozinhas do barco, para nada! Devemos sair somente acompanhadas por ele.

 Muito bem! Concordamos e nos despedimos, ele também estará no cruzeiro, é só chamar.
 O motorista da van já havia levado nossas malas para o navio, portanto quando chegamos fizemos o check-in e fomos para a cabine. 

Nosso cruzeiro vai começar.